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domingo, 17 de abril de 2011

Passos

Meus passos. Essas duas palavras juntas já dizem tudo; são meus passos, e de mais ninguém.

Andando na praia e reparando nas pegadas na areia percebo como é engraçada e ao mesmo tempo estranha essa analogia de passos. Eles são como nosso caminho, nossas pegadas são as marcas de termos passado por ali.

Quando era pequena escolhia seguir fielmente os passos de meu pai, pisando exatamente onde ele pisava. Porém fui crescendo, e o caminho que ele tinha escolhido para seguir já não me brilhava mais aos olhos. Decidi então me arriscar pisando por conta própria na areia; primeiro temerosa, pisando logo ao lado da pegada de meu pai, e aos poucos já andava a alguns metros de distância.

Vou andando e vejo muitas pegadas ao meu lado, elas vão crescendo comigo e vão seguindo seu caminho. Por diversas vezes essas pegadas cruzavam meu caminho, umas seguem até hoje, longa distância – arrisco-me a dizer. Outras apenas passaram de passagem, cruzaram meu rumo e logo seguiram pelo delas... A essas, desejo apenas sorte, pois provável que nunca mais as veja.

As pegadas vão seguindo, e quando olho para trás as vejo ali, no mesmo lugar onde as deixei. Uma onda de satisfação me invade – eu havia deixado minha marca no mundo. Mas então, eis que aparece de surpresa uma onda, e leva consigo todas as pegadas que fiz, e toda a areia fofa e seca que me havia pela frente.

Paro, reflito e vejo que tudo que fiz foi em vão; as pegadas que deixei foram apagadas com o passar daquela maré. Mais alguns minutos de reflexão e um sorriso brota – os erros que cometi também foram apagados. A pegada fora do lugar, as pessoas que cruzaram meu caminho... Foi tudo apagado, e as marcas que ficaram no mundo igualmente, mas não as marcas que ficaram em minha memória.

Olho novamente para trás e vejo que nada daquilo que tinha construído permanece lá. Desvio o olhar do passado e fito agora o futuro – é como uma tela em branco. A areia lisa começa a ficar fofa novamente. Novamente o foco de minha visão muda, dessa vez para meus pés. Duas fundas pegadas estão sendo criadas no lugar onde fiquei parada.

Começo então a caminhar, construindo a cada passo um novo passado e visando um futuro próximo. Planejo por onde passar, o desenho que vou criar com as pegadas, e ao reparar novamente vejo passos inéditos ao meu lado. São pessoas que entraram em minha vida nessa nova fase. Excitada procuro pelos meus antigos companheiros de caminhada, alguns dos quais pensei que estariam comigo... Ilusão.

Assim como a onda veio e apagou meus passos, levou consigo alguns dos meus companheiros para longe, provavelmente para outra praia, onde começarão sua nova jornada – longe de mim.

E assim a vida vai se formando. A areia seca e a maré baixa, caminhada fácil; esse é aquele período em que tudo em sua vida segue placidamente, como se nada pudesse dar errado. Eis que vem a onda, a maré enche. A caminhada é ardilosa e é como se caminhasse no escuro, sem conseguir ver a areia a sua frente e nem enxergar claramente os passos dados; é aquele momento conturbado pelo qual todos passam. Onde se decide quem vai continuar contigo adiante, e quem vai ser ‘levado’ pelas ondas. Depois de um tempo já é possível ver novamente a areia e o lugar onde você caminha fica macio, como se a natureza quisesse lhe confortar por ter agüentado continuar a andar.

A areia é a caminhada da vida; a maré que enche e vaza são as dificuldades e oportunidades apresentadas. Como você vai unir essas duas coisas, se vai desistir ou não, achar um companheiro fiel ou não... Estas são coisas que dependem apenas do viajante; Até porque, a areia e o mar estarão sempre ali, a única variante sou eu e o modo como caminho. Estranho? Não; são apenas meus passos e suas analogias.

Um comentário:

  1. Que texto mais lindo, Bel! Não acho que possa te dar alguma crítica construtiva, esse tipo de escrita é tão pessoal que me sentiria inconveniente tentando dissecá-lo...

    Engraçado que mesmo que existem várias analogias diferentes pra exemplificar a vida, cada uma parece precisa em um aspecto específico... A sua me deu uma visão de movimento, que a vida realmente não pára pra esperar a nossa reação, temos que continuar caminhando sempre :DDD

    Continue escrevendo coisas bonitas assim, e vê se não deixa a maré te levar pra longe de mim, tá? <3

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